Era uma vez um Fiestinha

Nascido em São Bernardo do Campo, na fábrica da Ford no ano de 1995, com um motor 1.3 de quase 60 cv, o Fiestinha foi um carro que participou de muitas aventuras. No princípio era um carro familiar, visitador frequente das festas de fim de ano nas praias de São Paulo. Tinha a difícil missão de transitar a rodovia dos Tamoios no final de dezembro para enfim depois de muitas horas e um calor agonizante na descida da serra, chegar a seu destino final, Caraguatatuba. Janeiro era o seu mês favorito, vivia de praia em praia. Suas praias favoritas eram a do Indaiá, a tranquila Prainha, a monótona Palmeiras e a traiçoeira Praia Martim de Sá e digo isso porque essa praia assustava ao Fiestinha, era uma praia de tombo com ondas fortes bem no começo. A cereja do bolo era a praia de Maranduba, que de vez em quando ele visitava, enfrentando o trânsito da Rodovia Rio-Santos. Em uma dessas viagens, o Fiestinha passou um aperto com um policial rodoviário: fazia 4 anos que seu IPVA não era pago, somente o licenciamento (naquela época era possível fazer isso). O guarda queria guinchar o carro e deixar todos os seus ocupantes, incluindo eu e mais 2 crianças, no meio da rodovia. Graças ao bom senso e ao firme comprometimento por parte de meu pai de pagar todos os impostos, o Fiestinha foi liberado e pudimos seguir viagem.

Com o passar do tempo, o Fiestinha ficou mais boêmio, começou a frequentar os bares do centro de São Miguel, sempre estava estacionado em algumas dessas ruas movimentadas perto da estação de trem. Na época em frente ao bar tinha uma casa de fliperama e lá eu me divertia voltando da escola enquanto meu pai confraternizava com os bêbados do boteco. Mas a situação foi ficando mais complicada, uma vez ele foi esquecido lá mesmo no centro, meu pai tinha voltado a pé pra casa. E lá fui eu correndo a buscar onde estava estacionado o pobre Fiestinha. Naquele tempo, GPS era luxo, assim que foi na tentativa e erro mesmo, até que finalmente encontrei ele todo choroso largado em uma das ruas.

Depois dessa etapa mais vagabunda, o Fiestinha ficou um tempo mais ermitão (meu pai já não podia mais dirigir). Ficou guardado em uma garagem, sem rodar muito. De vez em quando meu avô levava ele pra dar um passeio e tomar um pouco de gasolina. Eu também andava com ele esporadicamente até algum bar da Avenida Augusta; teria o Fiestinha o mesmo destino que em São Miguel: terminaria esquecido em alguma rua do centro de São Paulo, dessa vez um alvo perfeito para os homens de vida fácil? Felizmente foi só foi uma fase. Eu estava mais conectado com as viagens em bicicleta, assim que não lhe dava muita bola. O tempo foi passando, seus pneus foram ficando carecas, suas mangueras ressecadas, suas peças desgastadas. Era a velhice que se aproximava com o inevitável abandono e o Fiestinha virando peça de museu? A resposta outra vez era não.

De estar abandonado em uma garagem a ter um final aventureiro porra-louca, chegamos à última etapa do Fiestinha. E para ilustrar tenho que contar duas histórias sobre ele. A primeira foi uma escapada atrevida de um fim de semana até Ubatuba num feriado de novembro de 2015. Viajamos com um amigo até a trilha do morro do Corcovado (SP) que fica perto da praia. Com mais de 1100 metros de altura, é um dos pontos mais altos da serra do mar e do litoral norte de São Paulo (algum dia vou contar o relato dessa emocionante trilha). Meu querido Fiestinha se comportou muito bem na descida da serra e nos levou direto aos pés da montanha. Em seguida começamos a trilha e depois de haver errado nas primeiras bifurcações, decidimos voltar até o começo e acampar a primeira noite lá mesmo ao lado dele. De manhã, o Senhor Tosaki, um famoso morador da região, apareceu cedinho com uma garrafa de café quentinha, acompanhado de sua cadela Bela. Assim ficou bem mais fácil subir a trilha e o Fiestinha ficou muito contente, podem ver nas fotos.

A segunda história é um pouco mais trágica. Em algumas tribos xamânicas, é um costume que o integrante mais antigo realize sua última viagem antes de morrrer. Em geral se despede dos seus conhecidos e se dirige a uma montanha da região pra não voltar mais. Assim aconteceu com o Fiestinha, no começo de 2016. Mas em vez de ir a montanha, foi a uma ilha.

A viagem de São Paulo a Florianópolis foi um êxito, para alívio da minha mãe. Meu querido Fiestinha se comportou muito bem durante as 12 horas de viagem que unem a cidade de Sampa à capital de Santa Catarina. Mesmo sem nenhuma revisão, o Fiestinha conseguiu chegar até a Ponte Pedro Ivo Campos colocando suas quatro rodas pela primeira vez (e última) em sua vida na capital de Santa Catarina. Ali bem no meio da ponte, uma frase profética selou seu destino: meu Fiestinha ia entrar na ilha, mas nunca mais ia sair. Foram 2 meses de festas e visitas a distintas praias do norte e do centro de Floripa. Na época eu estava patrocinando uma banda de reggae e buscava atrair mais público aos shows nas praias de Canasvieiras e Barra da Lagoa. Mesmo com todo o esforço, as apresentações não rendiam muito. A economia da ilha era bastante espinhosa. Mas os eventos eram muito divertidos.

O pessoal que me conhecia sempre me convidada um drink. Era um lual na praia da Barra da Lagoa no final de abril, foi fatal. Estava garoando. Eu fiquei até o final. Eram 7h da manhã e era hora de ir embora. Meu hostel ficava na Lagoa da Conceição. Entre a Barra e a Lagoa tem um morro bem inclinado, até para os carros mais potentes, a subida é difícil e a descida, acentuada. Eu estava sozinho, o Fiestinha aguentou a subida, mas com os pneus carecas e a pista úmida, a descida foi terrível. A primeira parte é uma curva à direita, com a pista escorregadia, perdi o controle do carro, joguei o volante pro outro lado, o carro derrapou e pra pior, joguei o volante de volta e o carro capotou! Eu voei pela janela, o carro saiu capotando e caiu em um barranco ao lado direito da pista, eu caí embaixo do carro. Por um milagre não quebrei nada, tive apenas ferimentos leves. Um casal, que vinha no carro de trás, me ajudou a sair debaixo do carro. Eu estava preocupado buscando meu celular, nem tinha reparado que estava vivo hehe.

O Fiestinha ficou jogado ali mesmo no meio da mata. Era seu último momento. Não precisava nem de UTI. Igual a Casimiro de Abreu que morreu aos 21 anos, ele se despedia também. Alguns conhecidos me ajudaram a retirar meus pertences, eu já estava recuperado. Até veio um guincho a rebocar o carro, mas não havia nada por fazer, suas partes foram vendidas como órgãos, o motor, o radiador, as rodas etc. Sua carcaça desapareceu nos desmanches da região e apenas ficou este relato. E assim a profecia foi cumprida, o Fiestinha jamais saiu da ilha. Era uma vez um Fiestinha.


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Lucas Ramalho

Mountaineer, entrepreneur, poet and traveler.

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