Aventuras em Ladakh

Minhas aventuras pela Índia terminaram em Ladakh, um território no extremo norte da Índia, bem no meio da cordilheira dos Himalaias. A região se popularizou nas últimas décadas, graças às paisagens deslumbrantes e diversas opções de trekking para os visitantes. Para quem quer ter uma ideia das belezas do lugar, vejam as minhas fotos e assistam o filme indiano “3 idiotas” (3 idiots). Algumas cenas do final foram gravadas nesse lugar.

Para chegar até Ladakh, a melhor opção são voos diretos até Leh, capital da região. Mas, como eu estava em Dharamshala, também no norte da Índia, tive a arriscada ideia de ir de ônibus. Afinal de contas, se eu já estava lá perto, seria só um ou dois dias tranquilos de viagem, o que poderia dar errado? Carol, minha companheira do último trekking, também ia pra lá e embarcamos juntos.

Uma viagem na Índia, nunca é só uma viagem. Saindo de Dharamshala, a primeira parada que fizemos foi em Srinagar, uma parte diferente da Índia, muçulmana, com barcos flutuantes convertidos em restaurantes e hotéis. Nos divertimos, passamos uma noite na cidade e no dia seguinte cedinho, sexta-feira, era só pegar o ônibus direto a Leh. Só que não. Depois de 4 horas de viagem chegamos a um ponto em que a estrada estava bloqueada, ficamos parados por horas, buscamos almoçar lá perto e depois o ônibus voltou pra Srinagar. Chegamos de noite com a promessa de no dia seguinte fazer a viagem. No dia seguinte, 5h da manhã fomos até o ponto de partida e nos avisam que a viagem tinha sido adiada para o próximo dia. Eu fiquei bravo. Mas não tinha mais remédio que voltar pro hotel e caminhar pela cidade mais um dia. Next day, finalmente saiu o ônibus rumo a Leh, o começo da viagem foi tranquilo até que… uma avalanche bem na frente do caminho bloqueou a estrada hehe, parecia o dia da Marmota. Bem eu pensava que era só esperar que algum órgão do governo viesse pra liberar a estrada, só que não. Todos descemos, o motorista abriu o porta-malas e várias pás foram distribuídas entre os passageiros, todos a cavar e retirar a neve da estrada, hehe! Foram várias horas de trabalho árduo, os carros menores conseguiram passar primeiro, mas o ônibus ficava travado na parte superior, tinha muito gelo ainda, então patinava e tinha que dar marcha à ré e bora cavar outra vez. No final da tarde finalmente conseguimos passar. Eu já está azul de fome, mas feliz porque a viagem dessa vez continuou. Paramos à noite pra dormir em um vilarejo remoto chamado Kargil e no dia seguinte finalmente chegamos a Leh! Parecia um sonho. Desde Srinagar até Leh são 400 km aproximadamente, nós levamos 4 dias. Como eu disse no começo, uma viagem na Índia, nunca é só uma viagem. Mas vamos falar de trekking.

Em Leh encontramos o francês Floron, amigo de Carol, que recém havia chegado de Paris e ia se juntar a expedição. Passeamos pela cidade, compramos os equipamentos restantes que faltavam, comida e planejamos o trekking pelo Vale do rio Markha, um dos percursos mais conhecidos da região. Tudo pronto, dia seguinte, primeiro de maio, pegamos um táxi direto a Chilling. Já no começo a primeira surpresa, tinhamos que cruzar o rio Zanskar em uma cadeirinha sustentada por roldanas que giravam sobre um cabo de aço. E para dar impulso, uma corda tinha que ser puxada pela própria pessoa na cadeirinha. Um sistema bastante engenhoso e funcional. Cruzamos o rio e começamos o trekking. O caminho era bem intuitivo, seguia por todo o vale do Rio Markha com alguns cruzamentos do rio que estava com um caudal bem baixo, o que facilitava a caminhada. O Clima estava ótimo, estável e seco e durante o dia fazia calor. Tivemos um primeiro contato com o entorno fazendo uma caminhada bem tranquila de 2 horas aprox.

O segundo dia já foi mais puxado. Seguimos o trek na direção sudeste, subindo ao longo do rio. Foram oito horas de caminhada até Markha Village, que fica na metade do percurso total (veja o mapa abaixo). À noite dormimos em uma casa local e comimos arroz, dal (ensopado de lentilhas com curry e outros especiarias) e vegetais. Pra esquentar tomamos uísque.

O terceiro dia foi estratégico, seguindo pelo vale do rio Markha, fizemos uma curta caminhada até Hankar a 3900 metros, o último grande povoado na trilha antes de começar a subida até o passo de Kongmaru La a 5130 metros. Fizemos uma meditação na beira do rio, descansamos de tarde e dormimos bastante pra recuperar-nos do cansaço do segundo dia.

O quarto dia foi o dia D, o dia de cruzar o passo de Gongmaru La. Acordamos bem cedo. 6h da manhã. Acertamos o caminho até Nimaling a 4730 metros. Ali começava o rio Markha. Em Nimaling, nosso trek abandonou o vale do rio e seguiu para norte, em direção a Shang Sumdo, passando pelo passo Kongmaru La. Foi um dia difícil. Paramos pra comer e recarregar as energias ao meio-dia. A altitude tem que ser trabalhada com paciência. Seguimos e depois de 2h e meia finalmente chegamos ao topo do passo, ornamentado com montículos de pedras e as famosas bandeiras coloridas de mantras e orações. Nos abraçamos e tiramos fotos. Meu olho tremia. Após alguns instantes pra recuperar o fôlego começamos a descida, foram mais 4 horas até Shang Do, ponto final do nosso trek. Já era noite. Tomamos sopa e jantamos. Estávamos cansados, mas contentes.

No dia seguinte, comemos no Pizza “de Hutt” para celebrar e depois tomamos um táxi de volta a Leh. Foi um trek formidável pela cordilheira de Zamskar. Era minha primeira vez nos Himalaias, a mais alta cadeia montanhosa do mundo. Estar lá foi uma das minhas grandes aventuras pela Índia e também o final da minha estadia no país. Já estava para cumprir os 90 dias do visto. Me despedi emotivamente de Carol que havia sido minha companheira de trek nas últimas três semenas, ela e Floron voltariam a França. Era hora de seguir em frente, ou melhor, seguir mais alto. O meu próximo destino era o Nepal e o acampamento base do Everest, mas isso fica pro próximo post.

Lucas Ramalho

Mountaineer, entrepreneur, poet and traveler.

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