Meu avô Durão tinha uma bicicleta Caloi 10 antiga de estrada com guidão curvo e alavancas de câmbio no pescoço do avanço do guidão. Ela ficava encostada lá no fundo do quintal da casa dele. Eu com 14 anos comecei a usá-la para trajetos curtos, ir ao banco ou à padaria. Minha diversão na época era mostrar pra família que eu chegava mais rápido de bike que eles de carro. Com o trânsito de São Paulo, eu sempre ganhava, sobretudo em trajetos curtos.
O ponto é que eles ficavam preocupados justamente com a minha segurança no trânsito já que a cidade em 2004 tinha zero quilômetros de ciclovia. Mas eu só queria emoção e andava no meio do trânsito mesmo e como a bicicleta era fininha, eu passava em qualquer lugar. Com o tempo aprendi a lidar com os carros e sobretudo com as vans que literalmente tentavam me jogar pra fora da rua. Educação e empatia com o ciclista? Nenhuma.
Pouco a pouco, comecei a modificar a bicicleta: pintura nova, folha aero nas duas rodas pra aguentar os buracos, espuma no guidão, revisei os cabos. Ela foi ficando cada vez mais moderna e eu cada vez mais empolgado. Ganhou até um nome “Ventania”, a que viajava na velocidade do vento. Só que eu ainda não tinha muita experiência em trajetos longos, faltavam as viagens. Por enquanto ela ficava lá na casa do meu avô.
Um dia, era feriado, acordei cedo e fui tomar café na casa dele. Ele me comentou que estava indo com minha avó para o rancho, era um sítio que ele tinha em Paraíbuna, interior de SP. Ficava a 125 quilômetros de lá. Me convidou para ir, já estavam preparando o carro. Eu falei que eu iria sim, mas eu iria de bicicleta. Ele deu risada. Ele pediu pra eu fechar o portão e se mandaram. Eu olhei a bike encostada e pensei, por que não?
Eram 10h da manhã, passei em casa, coloquei um shorts mais confortável, peguei um cartão em que eu tinha uma reserva e me mandei também, de bicicleta. Eu saí sem ferramentas, sem água, sem lanterna, sem dinheiro, hehe, só tinha o cartão do banco, era ciclista de primeira cicloviagem.
Apesar da distância, o caminho era relativamente fácil, saindo da zona leste, tinha que percorrer toda a Ayrton Senna, uns 70 km, e depois no trevo, pegar a Tamoios por mais 50 km. Mas já era tarde para uma viagem deste tipo, 120 km, num ritmo normal incluindo paradas são 10h de viagem. E assim foi.
O começo foi tranquilo, o clima era estável, o acostamento da rodovia SP-070 estava em boas condições, mas eu comecei a sentir sede. Então parei num posto rodoviário e pedi água, os policiais ficaram curiosos e perguntaram pra onde eu ia, eu falei que ia pra Paraibuna e eles ficaram preocupados, comentaram da importância de ter algum colega que acompanhe e obviamente levar água. Eu tomei água e segui viagem, naquele momento não tinha muito o que fazer.
Depois de algumas horas de pedalada forte, já no final da Ayrton Senna, perto do trevo pra Tamoios, eu comecei a sentir fome. Só que eu estava sem dinheiro. Aí eu lembrei que tinha pegado o cartão do banco, foi o que me salvou. Parei ali no restaurante Frango Assado e comi 2 coxinhas e um café com leite. Estava contente por ter chegado até lá. Eram 17h e na minha cabeça faltava pouco pra chegar no rancho. Só que não, faltava 50 km pela tamoios. Num ritmo bom eram mais 3 horas e eu chegaria lá de noite.
Quando entrei na Tamoios, meu ritmo diminuiu. Naquela época a rodovia não tinha acostamento e o asfalto estava deteriorado em alguns trechos. Eu também comecei a sentir cansaço. Comecei a ficar preocupado, mas mantive o foco e segui em frente. Os caminhões passavam bem perto de mim e eu tive que aumentar minha atenção. A noite chegou e ainda faltava uns 20 km. Eu comecei a sentir sede outra vez. Em uma parte, vi uma pequena queda d’água saindo de um rochedo, parei na beira da estrada e aliviei um pouco a minha sede.
A escuridão da estrada dificultava o percurso, não havia iluminação, apenas os faróis dos carros e a luz da noite que por sorte estava bem bonita e clara. Eu vivia um estresse misturado com cansaço e vontade de chegar. Já não me dava mais as pernas e a falta de acostamento deixava a situação mais difícil. Num trecho em descida, eu simplesmente me deixei levar, já nem me importava mais em pedalar até que foi, foi e finalmente depois de um tempo, olhando à direita eu vi a entrada para o rancho. Viva! Eram 20h e eu finalmente chegava no meu destino.
Só que tinha um detalhe, o rancho era do outro lado da represa, pra chegar lá tinha que agarrar um barco e percorrer a represa por 10 minutos. A entrada era pelo bar do Laércio, pescador da região que cuidava dos barcos e tinha seu rancho lá também. Milagrosamente, ele conseguiu ligar pro meu avô, na época eram aqueles celulares antigos e o sinal na região costumava falhar. Ele ligou e falou que o neto dele, no caso eu, tinha chegado de bicicleta de SP e estava esperando pra ele vir buscar. No começo meu vô achou que o cara estava bêbado hehe, ele não estava me esperando, nem acreditou na minha história de que eu ia de bicicleta e pra completar era de noite. Mas o Laércio insistiu e me passou o telefone, aí eu pedi pra ele vir me buscar hehe e ele veio, resmungando e ao mesmo tempo sem acreditar que eu pedalei tudo isso. Colocamos a bicicleta no barco e finalmente eu podia relaxar depois de tanta tensão, com a alegria de haver concluído essa primeira louca viagem e com muita fome obviamente.
Quando chegamos lá no rancho, minha avó perguntou onde estava meu amigo, eu insisti que vim sozinho, mas ela não acreditava, ela achava que eu tinha colocado a bike no carro de um colega, que me deixou bem na entrada do rancho, e que eu não tinha pedalado nada, que era tudo história de pescador. E pra completar, naquela época (2004) não era comum celular com câmera, assim que não tirei fotos da viagem, nem sequer eu tinha levado celular. As fotos que eu mostro aqui são de outras viagens posteriores pra ilustrar a beleza de Paraibuna. Mas enfim, acredite ou não, essa foi minha primeira cicloviagem de muitas outras. Na volta, coloquei a bike desarmada dentro do carro e voltei com eles disfrutando do conforto do automóvel.
Um cicloabraço e até a próxima!
Lucas Ramalho














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