O Mundo em Fotopoesia: Turquia
Cheguei a Istambul de ônibus vindo da Bulgária. Me senti pela primeira vez em São Paulo. Mais especificamente na Marginal Tietê em uma sexta-feira daquelas. Um trânsito do cão. A cidade é enorme e tem a mesma população de Sampa, só que na versão muçulmana. Levei um tempo até me localizar. Fui para um hostel no centro turístico bem pertinho da famosa Mesquita Azul e da Hagia Sophia. Esta última já foi de tudo, basílica na época dos gregos, mesquita na época da invasão e domínio dos turcos otomanos e agora um museu aberto para a visitação do público. Ela é a referência máxima da arquitetura bizantina e impressiona pela sua imponência. Milhares de turistas todos os dias visitam-na. Japoneses gastam horas tirando fotos e mais fotos delas de todos os ângulos possíveis. Em frente dela a mesquita azul também se destaca, com estilo parecido, mas com elementos tradicionais muçulmanos. Serviços regulares ocorrem na mesquita e ela abre apenas em horários específicos. Prepare-se para a fila ou acorde cedo, caso queira visitá-la. Vale a pena. O centro de compras localiza-se na Istiklal Avenue, umas das mais movimentadas do país sendo visitada por mais de três milhões de pessoas diariamente. É um mix de Avenida Paulista com Augusta, só que fechada para carros e com mais charme e prestígio.
A cidade é famosa pelos Kebabs (churrasco grego), com vendedores ostentando facas de 12 polegadas posando para fotos. Quando provei o café turco, descobri que ele é mais forte que Whisky com energético e deixa qualquer um ligadão. Pra completar fui aos doces. Existem feiras imensas somente vendendo doces turcos, um mais delicioso que o outro. Em suma, não vá pra Turquia se estiver de dieta. E não para por aí: a ponte Galata é um show a parte onde centenas de pescadores tentam a sorte sobre o estreito do Bósforo. No andar de baixo da ponte (isso mesmo, ela tem dois andares), restaurantes turísticos vendem diversos pratos à base de peixe, ou seja, peixe mais fresco do que isso é impossível. A noite, as atrações são os bares de cinco andares que ficam perto da Taksim Square, com cada andar tocando um tipo de música diferente. Outros bares se localizam no terraço de edifícios e garantem uma visão fantástica da cidade. Istambul merece pelo menos uma semana para ser explorada pelo mochileiro de primeira viagem e sempre convida-o a retornar.
Pois bem, segui viagem então para a famosississíssima Capadócia. Me senti como Alice no país das maravilhas. Aquelas chaminés de pedras por todas as partes e de todas as formas pareciam esculpidas por um Michelangelo, o céu pintado por um Van Gogh e só faltava a voz de Yma Sumac para completar aquela perfeição. Estava tão empolgado que resolvi escalar umas dessas chaminés. Tinha mais de 20 metros e começava no final de uma trilha que eu fazia sozinho. Uma moça, com uma loja no meio do caminho, tinha acabado de me falar que por ali não se poderia seguir até o topo, pois não havia trilha. Mas eu resolvi tentar. As chaminés são feitas com pedras calcárias, escorregadias e eu estava com botas de trekking inadequadas para escalada. A rocha tinha no total uns 20 metros, a primeiro metade foi tranquila, mas a última parte faltando 4 metros para o topo era realmente desafiadora. Tentei dar um pulo para ver se alcançava a grama no alto para poder me apoiar, mas em vão: escorreguei vagarosamente de volta. Então insisti novamente e pulei muito alto: por centímetros não alcancei a grama, só que não deu e dessa vez eu escorreguei mais rápido e pro lado. Não deu tempo nem de gritar, eu cai quase 20 metros, porém não diretamente, mas em três lances. Quando atingi o solo, estava tonto e pude ouvir as vozes do além ao meu redor: já estavam prontos em caso de necessidade para fazer a passagem. Mas não foi dessa vez, e incrivelmente eu não quebrei nada, porém estava ralado pelo corpo inteiro. Após alguns segundos de recuperação, voltei caminhando até a moça e disse a ela, sangrando pelo corpo inteiro, que ela tinha razão, que por ali não havia como seguir. Me joguei no sofá que lá havia enquanto ela jogava água sobre mim. Queria chamar uma ambulância, mas eu apenas descansei antes de prosseguir. Na volta, após várias tentativas, peguei carona com um senhor num trator (as pessoas mais simples são as que mais dão caronas). Fui ao posto médico, mas recusei qualquer medicação, apenas consenti uma pomada antibacteriana. No dia seguinte acordei às 5 e já estava pronto para a clássica viagem de balão. Fui com um grupo de oito pessoas, incluindo alguns brasileiros. Dessa vez eu me sentia no balão mágico. O cenário é quase indescritível, havia uns duzentos balões no ar antes do nascer do sol. Ora o balão subia ora se aproximava das chaminés bem pertinho do solo. A chama acesa garantia o vôo, que dura uma hora aproximadamente e termina com uma garrafa de champanha, já em terra firme. É sem dúvida essencial na Turquia.
De lá segui com a capixaba Evie até Fethiye, cidade litorânea à beira do Mar Egeu, que possui provavelmente a praia mais fotografada de todo o Mediterrâneo: Oludeniz. Se for voar de parapente alguma vez na sua vida, lá é o lugar perfeito para isso. E foi isso que eu fiz. Pulamos de uma encosta próxima com 2 mil metros de altitude. Um voo de 20 minutos com uma descida rodopiante garantiu uma emoção sem igual. Dessa vez me sentia frente a uma imensa tela de cinco dimensões mostrando um pouco do espetáculo da natureza. Lá rolou um quarteto brasileiro único na minha viagem. Conhecemos dois mineiros no albergue e então exploramos a região juntos, incluindo uma cidade fantasma próxima. A noite organizamos um peixe na brasa e tomamos muita Raki (leite dos fortes), destilado nacional da Turquia equivalente a nossa cachaça, junto com o dono do hostel e mais alguns viajantes. Para terminar minha trip pela Turquia passei rapidamente por Éfeso, outrora conhecida como a mais ilustre de todas as cidades da Ásia. A cidade foi um grande centro de comércio exterior e por lá muitas culturas entraram em contato. Tinha um dos maiores teatros da época. Berço da filosofia, centro de diversas manifestações religiosas incluindo o Templo à Deusa Artemis, foi dominada pela praga do cristianismo nos tempos apostólicos. Me passei por pesquisador e pude então entrar nas ruínas fechadas ao público. Fiz uma visita pela área aberta também e me impressionou a suntuosidade daquela cidade. O teatro é realmente grandioso e o local possuía um sistema de esgotos e de água bem avançado para a época.Me despedi e segui então de volta à Istambul apenas para pegar meu vôo para o próximo destino: Israel. Turquia é um lugar que vale a pena ver de novo.
Lucas Ramalho

















































