O Mundo em Fotopoesia: Caminho de Compostela
Após uma curta visita a Berlin, Londres e Escócia, minha volta ao mundo começou de fato pelo maravilhoso caminho de Compostela. Mais que uma simples trilha, uma verdadeira senda espiritual. Uma descoberta das potencialidades do corpo e da mente. Um verdadeiro exercício da famosa mensagem do Oráculo de Delfos: “Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. Quando o desejo é lançado aqui na Terra, não há mais retorno. Todo o universo conspira para realizar o seu intento.
O caminho exige coragem e perseverança, resiliência e fortaleza. As bolhas no pé e a dureza física da jornada são apenas cócegas quando comparadas ao trabalho espiritual que ele proporciona. O que importa não é a duração e a distância, mas a forma como ele é feito. A entrega que é necessária para poder trilhá-lo. Como se dizia antigamente “Curvar-se permite a plenitude” e é justamente ela que obtemos.
Suas características intrínsecas tais quais: acordar antes do sol nascer, caminhar de 30 a 40 quilômetros por dia, se alimentar bem e desapegar-se de tudo são parte de um treino vital para vivermos bem aqui na Terra. Daqui nada levamos a não ser aquilo que esteja guardado em nossos corações. Carros, casas e coisas são apenas ferramentas, mas nada disso é mais importante do que aquilo que registramos em nossa alma. É isto que contará no final. O que realmente importa para nós? O que de fato é tão importante em nossa vida para merecermos esta grande oportunidade de estar aqui na Terra?
São quase 800 quilômetros de caminho, feito inteiramente a pé. Ele começa em Saint-Jean-Pied-de-Port, sul da França. Lá obtemos um certificado de peregrino para podermos nos hospedar nos albergues durante o caminho. Em cada um deles, o certificado é carimbado como prova da passagem do peregrino. Muitos albergues são gratuitos e até mesmo o jantar é oferecido mediante apenas uma doação. O começo é a parte mais crítica, onde o corpo começa a se adaptar ao ritmo da jornada. Eu comecei bem pesado como muitos peregrinos, com 25 quilos e em um ritmo forte, caminhando 120 quilômetros nos primeiros três dias. Logo o corpo sentiu e eu achei por melhor enviar todo aquele peso pelos correios. No quarto dia estava apenas com 3 quilos, mais do que suficientes para a peregrinação. Alguns até pensavam que eu tinha carro de apoio, mas não. Aquilo era tudo o que eu precisava.
Na segunda semana, após comer um almoço suspeito em um restaurante, eu senti um forte desconforto estomacal, uma diarréia bem no meio do caminho. Não me abati. Continuei caminhando por mais 100 quilômetros apenas tomando líquidos. Quando chegava no albergue, perguntava não se havia camas disponíveis, mas banheiros hehe. No terceiro dia, já bastante debilitado, dei o voto de minerva: ou melhorava ou teria que parar o caminho. Fui à farmácia e comprei Loperamida. Em duas horas, ele travou tudo e então eu pude continuar a jornada.
Por todo o caminho, vai-se encontrando e conhecendo peregrinos, cada um com seu propósito e ritmo próprio. Essa é a vantagem de se percorrê-lo só, você fica aberto para conhecer os caminhantes, o que, em grupo, fica mais difícil. De fato, você nunca está só, nem física nem extrafisicamente. Vozes pelo caminho vão te guiando pela jornada, é so fazendo para entender. Conforme eu fui me aproximando do destino, meu ritmo começou a melhorar, ainda mais porque eu estava super leve. Mais e mais peregrinos vão se agregando à jornada. Alguns deles fazem apenas uma semana, começando já bem próximo do fim. Vale a pena, porém não é a mesma coisa que começar lá do sul da França. Aliás, alguns começam da Bélgica, da Áustria ou até de mais longe, levando meses para completar a jornada.
O último dia foi o mais desgastante fisicamente e o mais recompensador emocionalmente. Eu decidi ir direto de Palas até Compostela, num total de 75 km, tudo isso em um dia. Comecei cedo, às 4h da manhã, e parti em um ritmo forte. Os primeiros 50 km foram tranquilos, porém conforme eu caminhava, começava a sentir muita dor e cansaço. Mas estava determinado a chegar à Compostela. Entoando mantras e sempre com os bastões em punho, continuei caminhando. Às 20h em ponto eu finalmente chegava à Igreja de Santiago de Compostela. Logo a seguir mergulhei sem camiseta em uma fonte próxima. Um italiano que me acompanhava dizia para eu não fazer isso, que a polícia viria logo, porém aquele era um verdadeiro batismo de chegada e eu me refresquei nas águas geladas da cidade. Achei um albergue e logo fui ter um jantar dos deuses. Um polvo ao azeite coroou a minha chegada e para a minha surpresa, quando fui pagar a conta, o garçom me disse que ela já estava paga, que uma mulher canadense que estava por lá decidiu pagá-la para mim. Eu nem a mesmo conhecia, porém ela pagou e logo se retirou sem que eu tivesse tempo de conversar com ela. Apenas agradeci de longe. Perguntei se era comum isso acontecer e o garçom disse que era muito raro. Agradeci a generosidade dela.
Pela cidade reencontrei diversos peregrinos e peregrinas que havia encontrado pelo caminho. Ele é tão mágico que conseguimos até tirar uma foto coletiva com todos que fizeram parte dele em algum momento. Após 3 dias pela cidade eu não parei a caminhada. Segui agora com a mala grande de 25 quilos a pé rumo a Portugal. Caminhei mais 100 quilômetros pelo caminho lusitano, porém não encontrei nenhum peregrino. Na fronteira, um senhor de idade com a sua mulher insistiu muito para me levar até a cidade do Porto, que seria meu destino. Eu acabei aceitando a oferta e encerrando assim a peregrinação.
O caminho é para a vida toda e nos ensina algo muito precioso: caminhe leve, deixe pra trás aquilo que não é importante para você e seja gentil com que caminha junto pelo caminho. No fim, só importa mesmo este amor que cada um de nós tem a oportunidade de sentir e compartihar. Buen Camino!
Lucas Ramalho


























