O Mundo em Fotopoesia: Marrocos
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Tudo no Marrocos é extremo. Cheguei ao país pelo insano ferry que faz a travessia entre Algeciraz, na Espanha e Rabat, no litoral marroquino. Insano porque leva horas para uma simples travessia e porque todo mundo lá dentro estava em um desespero tão grande (principalmente na volta) que eu me sentia parte de um reality show. Ao pisar pela primeira vez na África, a primeira surpresa: Ramadã. Não se podia beber nem comer durante o dia e eu não sabia. Sob um calor de 50ºC mesmo a água era proíbida aos muçulmanos, tudo em nome de Alá. Aos viajantes, era feita uma concessão e a água liberada, mas sorvete nem pensar, álcool nem em sonho. Os mercados são proibidos de vendê-lo neste período. Já em Fez, o maior aglomeramento do Marrocos, quem encontrar a saída do labirinto é rei. Só mesmo com ajuda dos locais para atravessar aquele verdadeiro formigueiro humano milenar. E somente guias locais pagos, diga-se de passagem, já que os marroquinos de Fez são proibidos de dar informações gratuitas ou ajudar estrangeiros sob pena de serem presos como eu mesmo presenciei.
A comida merece um destaque: cabeças de bodes expostas na calçada. Esqueçam geladeiras. Em um dos dias provei um salgado de carne de pombo que me valeu 10 dias diante do trono como diz a música. Em Marraquexe, encantadores de serpente e macacos de estimação divertiam o povo. Por lá as temperaturas chegavam à meia centena e ao meio-dia nem o diabo aguentava aquele inferno. Só mesmo um jardim botânico ou um café com ar-condicionado (raridade) para aliviar um pouco. À meia-noite tudo aberto: lojas, restaurantes, transporte. E o calor diminuia um pouco, mas só um pouquinho. Lembro bem que uma vez, às duas da manhã, no meu hostel estavam todos perambulando pelo salão de cuecas, ninguém conseguia dormir. Cansado da muvuca resolvi ir ao deserto. De camelo como nos filmes fui ao famoso e encantador Saara. Parte final da viagem por aquelas bandas e a mais espetacular. Conto nos dedos um nascer do sol tão belo como aquele que presenciei após dormir uma noite por lá. O Pequeno Príncipe teve muita sorte chegando à Terra justamente em um deserto, é incrível a plenitude que ele proporciona. Enfim após passar por vários extremos e ainda com um intestino mais solto que cão vira-lata, decidi que era hora de férias de verdade. Voltei à Espanha e finalmente relaxei um pouco pelas ruas de Barcelona. Mas isto é outra história.
Lucas Ramalho








































Acampamento dos beduínos




Descansando no Saara

