Em outubro de 2012 cheguei à Bulgária, um curioso país na região dos balcãs, leste europeu. Durante minha estadia na capital Sofia, conheci Eliav, um americano de 18 anos da Filadélfia. Depois de comentar que era montanhista, ele se entusiasmou e mencionou o trekking dos 7 lagos e do mosteiro de Rila. Eu fiquei relutante com a ideia, já que ele não tinha muita experiência e também não era a melhor época pra ir, o outono trazia frio e nevadas para a região. Passando alguns dias, voltei a encontrá-lo e ele voltou a insistir, assim que bem, armamos uma expedição, eu estava bem equipado, só que ele não.
De Sófia tomamos um ônibus para Dupnitsa e então na estrada conseguimos uma carona para Sapareva Banya até o começo da trilha, era o começo da tarde e estavamos um pouco atrasados. Na entrada do parque um funcionário nos deu um mapa dos 7 lagos, item fundamental. O céu estava entreaberto e a principio fomos em um ritmo tranquilo tirando fotos. São lagos glaciais muito bonitos que estão acima dos 2 mil metros de altitude, cada um tem um formato e um nome diferente. Mas o clima não ajudava, ventava bastante. Quando estavamos perto do quinto lago, rapidamente o céu escureceu e começou a chover. Eram 17 horas. Como eu imaginava, Eliav não veio preparado, tinha apenas uma capa de chuva descartável e nenhum abrigo para o frio nem lanterna. Ele começava a sentir frio.
Apertamos o passo, passamos pelo último lago e chegamos ao ponto mais alto da trilha. Já era de noite, tinhamos uma visibilidade muito baixa. Para complicar ainda mais, começou a nevar. Eu consultava o mapa com a lanterna. Era uma zona de alto risco e se perder ali poderia ser fatal.. Seguimos então por todo um vale montanhoso que descia para o abrigo do Ivan, a cabana no meio do nada, que era o unico lugar seguro em toda a região. Mas ainda estava longe. O que nos ajudou bastante nesta parte foram postes altos de mais de 2 metros que estavam instalados a cada 200 metros e justamente serviam de marco de orientação da trilha, sobretudo quando haviam nevadas.
Eliav estava assutado, cansado e molhado, sugeriu armar a barraca que eu tinha ali mesmo no meio do vale. Eu falei pra ele que isso seria suicídio, iriamos congelar no meio da neve e pra completar, começamos a escutar uivos de lobos. Seguimos em frente por mais duas horas caminhando em meio ä tormenta até que finalmente pudimos avistar o abrigo. Estava com todas as luzes apagadas. Nos atiramos sobre a porta que se abriu com o empurrão e assim entramos no lugar. Parecia um filme.
Pensamos que não tinha ninguém lá dentro, haviam dezenas de quartos, mas nenhum sinal de vida. Até que tocamos a porta do último quarto e ali estava Ivan dormindo, hibernando, não esperava receber ninguém naquelas condições climáticas. Ele nos ofereceu sopa e chá. Prendeu a lareira. Eliav ficou bem perto do fogo buscando retomar a temperatura corporal, estava com princípio de hipotermia. Nos relaxamos e dormimos.
No dia seguinte, ficamos todo o tempo no abrigo, chegaram mais 2 franceses, a tormenta ainda continuava. Buscamos recarregar as energias e esperar o tempo melhorar. Jogamos truco e dormimos cedo. Finalmente na manhã seguinte pudimos seguir a trilha. Estava absolutamente tudo branco, tudo nevado, uma paisagem muito linda de se ver. O tempo tinha melhorado, mas seguimos com cuidado por causa da neve e havia uma passagem alta perigosa. O vento levou a capa de Eliav. Encontramos os franceses no meio da trilha. Finalmente depois de 5 horas de caminhada chegamos ao milenar monastério de Rila, considerado o maior tesouro cultural, arquitetônico e histórico da Bulgária. Impressionante lugar.
Depois de fazer a visita, nos relaxamos, comemos um peixe e bebemos uma cerveja junto com os franceses. Havia muito para celebrar, brindamos pela vida, por ter sobrevivido às tormentas e às nevadas, brindamos por esta aventura, que foi a trilha mais perigosa que eu fiz em 2012. Também foi uma grande lição: ¡Cuando vas a la montaña, tienes que estar preparado!























Comente!