O Caminho de Compostela

O Caminho de Compostela. Muitos já ouviram falar desta rota de peregrinação milenar, poucos já caminharam seus 800 km.  Pra quem não conhece, são percursos feitos por peregrinos que chegam à Santiago de Compostela, Espanha, desde o século IX para venerar as relíquias do apóstolo Santiago. Supostamente seu sepulcro se encontra na catedral de Santiago. Muitos peregrinos realizam o caminho por diversos motivos, sejam eles culturais, esportivos, turísticos e não somente por fins religiosos.

Motivação

Conheci um pouco da história do caminho fazendo pesquisas pela internet. A idéia de fazê-lo surgiu através de uma viagem larga que fiz por diversos continentes. Já empolgado por diversas trilhas que havia realizado, imaginei que seria um grande desafio não só físico, mas também espiritual. Na época era verão na Europa, o que facilitou minha decisão, já que o clima no inverno pode ser bastante hostil. Também estava em um momento de ano sabático e de busca de propósito e significado em minha vida.

Encontro com os Peregrinos

Uma das graças do caminho é o encontro e o reencontro com os peregrinos. Todos os dias conhecia pessoas novas e em alguma outra parte nos encontravamos de novo. Assim a caminhada se tornava mais alegre, entre histórias, risadas, jantares e brindes. Muitas vezes compartiamos o mesmo alberque e todos jantávamos juntos. Se armava um espírito de grupo que aumentava a motivação para seguir em frente.

Equipamentos essenciais

Uma das coisas que aprendi com o caminho é que é preciso caminhar leve. Comecei com a mochila pesada e cruzar os Pirineus com 20 kg nas costas foi bastante duro. Depois de 4 dias e muitas bolhas no pé, em Puenta La Reina decidi enviar todo o peso pelos correios direto a Compostela. Assim segui a caminhada com uma mochila de 3 kg, bem mais suave. Na mochila tinha uma toalha, duas mudas de roupas, chinelo, lanterna, dinheiro, um mapa e uma garrafa de água.

Uma peça fundamental foram os bastões de caminhada, realmente ajudam não somente a manter o impulso, mas também criam uma espécie de ritmo que ajuda a mente a se concentrar.

Outro equipamento essencial foram as botas de caminhada. Usar tênis ou chinelo não é recomendável, pelas bolhas no pé e também porque geralmente acabam se desgastando. Já as botas rígidas ajudam a proteger o pé e garantem uma caminhada segura.

Depois era seguir a concha de vieira, marcas indicativas da rota, que estam por todos os lados, no chão, em placas nas cidades, nos albergues e também os peregrinos sempre carregam uma como símbolo da peregrinação.

Caminho Solidário e a Fonte de Vinho

Outra graça do caminho é que em vários albergues não se cobrava a estadia e o jantar, sendo a contribuição voluntária. Também encontrei uma barraca no meio da montanha que estava cheia de alimentos disponíveis gratuitamente para os peregrinos. A cereja do bolo foi em Estella, onde existe uma fonte de vinho bem no meio do caminho, basta encher o copo. Todos os dias a fonte se enche com cerda de 100 litros de vinho, disponibilizados gratuitamente pela Bodega Irache para os peregrinos. Bom demais

A diarréia no Caminho

Minha jornada pelo tradicional caminho francês começou em Saint-Jean-Pied-de-Port, França, no dia 18/06/2012. Na primeira semana comi um frango contaminado e me deu uma diarréia pesada. Foram dias bastante dificeis e tive que andar buscando banheiros pelo caminho. Já bastante incomodado com a situação e quase pensando em desistir finalmente em Najera 5 dias depois, consegui melhorar do estômago e seguir a peregrinagem.

Chegando à Compostela

Depois disso o caminho foi se tornando cada vez mais leve conforme me aproximava de Compostela. Depois de duas semanas, meu corpo já tinha se adaptado totalmente ao ritmo de acordar e começar a caminhar, assim pude fazer mais kms por dia. O fato de acordar cedo ajudava o processo. Nos albergues só era permitido ficar até as 8h, depois tinha que seguir viagem. Na terceira semana, no dia 8 de julho já chegava ao Cebreiro, vilarejo que se encontra a quase 1300m de altitude. Foi outra subida bastante difícil. E o mais desafiador foi o último dia, 11/07 em Palas de Rei. Normalmente se levam 3 dias até chegar à Santiago. Eu decidi ir direto. Sai de Palas as 4h da manhã e caminhei cerca de 70 km até Santiago. Foram muitas horas e horas de caminhada, cansaço extremo e muita fome. Mas eu mantive minha decisão e às 20h cheguei á Santiago. Tão alegre estava que me joguei em umas das fontes da cidade pra refrescar o corpo pra desespero de um italiano que me ajudou na chegada e me dizia que não se podia fazer isso hehe. Depois fui jantar num restaurante um delicioso Polvo à lagareiro e um bom vinho. Pra minha surpresa, quando fui pagar a conta, já estava paga. Uma mulher canadense desconhecida que estava em outra mesa discretamente pagou a minha conta e saiu sem me avisar. Quem me contou foi o garçom. Incrível.

Dia seguinte fui buscar o certificado de conclusão do caminho, também fui à Catedral de Santiago ver a missa. Depois da missa, foi a hora de tirar a foto grupal com muitos dos peregrinos que conheci pelo caminho e que também tinham chegado à cidade. À noite fizemos uma celebração coletiva em um pub. Assim terminava esta jornada que durou 24 dias, um tempo bastante rápido em comparação à média de 30 dias.

Caminhar leve me ajudou bastante e me ensinou que precisamos soltar os pesos que carregamos na vida, não só físicos, mas também emocionais. Colocar a cabeça pra frente é o melhor remédio pra aliviar as angústias do passado. Confiar na vida e no caminho que trilhamos é o combustível pra que a gente alcance nossas metas e objetivos, com todas as dificuldades que implica. Em algum momento a gente chega lá, assim que o mais importante é disfrutar da jornada, aquela que a gente escolhe todos os dias quando acorda. Buen Camino!

Lucas Ramalho

Mountaineer, entrepreneur, poet and traveler.

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