Logo depois da minha expedição pela Patagônia, foi o momento de explorar novas trilhas pelo Brasil. Assim foi que viajei à Bahia, terra querida. Depois de pular carnaval por uma noite em Salvador, fui direto para a Chapada Diamantina. O ponto de partida foi uma cidade chamada Lençóis. De lá, Iria fazer a famosa Trilha da Fumaça por baixo e por cima. A Cachoeira da Fumaça é a segunda maior do País, com uma queda de 340 m. A trilha tradicional sai de Lençóis em direção ao Vale do Capão numa travessia de 3 dias. No segundo dia visita-se o poço onde cai a cachoeira e já no terceiro a trilha leva até o topo dela, oferecendo um panorama incrível do lugar. Geralmente os turistas vão acompanhados de guias, o que é muito bom pra quem não conhece a região ou não tem experiência, mas depois das minhas primeiras expedições, senti que poderia ir por conta própria. Com um mapa e algumas indicações de guias locais, foi possível dar conta do recado, mesmo me perdendo em um dos trechos, o que contarei mais pra frente no relato.
Ribeirão do Meio
Cheguei na cidade por volta das cinco da manhã, caminhei um pouco, comprei um mapa na loja dois irmãos, abasteci minha mochila com os últimos alimentos incluindo uma garrafa de vinho. Depois tomei um café da manhã reforçado e às 9h com a cargueira nas costas parti sozinho em direção ao Ribeirão do Meio. O caminho até lá é bem tranquilo. É um lugar bem divertido onde se forma uma espécie de tobogã e se pode escorregar na cachoeira. Também está cheio de poços onde se pode tomar banho à vontade.
Serra do Veneno e Toca da Onça
Após me refrescar no ribeirão do meio, segui a trilha logo acima do escorrega. É o começo da serra do veneno. Pense em uma subida íngreme. Dura em média 2h. Nos primeiros 10 minutos já tinha suado litros e litros. Um calor fortíssimo, sem qualquer vento e a subida era interminável. Para se localizar basta seguir as marcas de desgaste nas pedras. Ao meio-dia cheguei a um local com algumas construções inacabadas, logo indo em direção ao conjunto montanhoso em frente encontrei um caminho bem batido e plano, mas que depois continuava através de uma forte subida. Um pouco mais acima encontrei um grupo com um guia. A partir deste ponto, mantive a direita bem perto da encosta e logo a seguir comecei a descer no sentido de cruzar o córrego da Muriçoca e alcançar a montanha do outro lado. Feito isso, ainda por uma trilha bem batida, subi em direção à primeira toca, a da Onça. Cheguei lá às 13h. Geralmente os grupos não levam barracas, acabam dormindo em sacos de dormir dentro de pequenas cavernas apelidadas de tocas. Havia um grupo de baianos por lá, conversei um pouco com eles. Era a sexta vez que faziam o trajeto e admiraram minha coragem por trilhar sozinho por aquelas bandas.
Em busca da Cachoeira do Palmital
Segui em frente. A cachoeira do Palmital era o próximo ponto de parada e estava a 20 minutos dali na direção oeste. Mas em certo trecho eu não consultei minha bússola e comecei a seguir na direção sul. Estava com o relato na mão no qual o rapaz se perdeu da mesma forma e eu fiz exatamente igual. O problema ali é que a descida fica confusa, não há marcações e em certo porto há uma trilha marcada que vai descendo toda a encosta acompanhando o rio Capivara que segue abaixo. Eu fiquei em dúvida por um segundo sobre que direção tomar, mas optei por esta trilha que apesar de marcada é bem fechada em alguns trechos indicando que não é frequente a passagem por ela. E após 1h cheguei justamente ao leito do rio Capivara perto de seu encontro com o córrego da Muriçoca. A partir dali a trilha sumiu, eu cruzei o rio na tentativa de encontrar a continuação dela e não havia nada. Parei, sentei, olhei o mapa diversas vezes e acabei concluindo que eu estava na trilha errada. Tive que descansar por 10 minutos. Subi toda a encosta de novo e às 16h estava no mesmo ponto que fiquei em dúvida. Desta vez tive certeza de seguir na direção oeste, no sentido do barulho, e depois de 20 minutos descendo pelas pedras, cruzei o rio e cheguei por fim ao acampamento do Palmital. Encontrei gente por lá, haviam 4 turistas sem guia que também se perderam por aquelas bandas. Deixei minha mochila perto da barraca deles e segui para tomar um banho na queda d’água. Refrescante e lindo o local. Eram 17h e eu ainda tinha que seguir até a toca da Capivara onde iria pernoitar. Desta vez não me perdi, depois do acampamento desci à direita da cachoeira que se forma e já embaixo mantive à direita subindo pelo rio Capivara chegando a toca em seguida. Havia um baiano por lá que estava há 16 dias trilhando na chapada sem parar. Um casal também estava acampado por lá. Fiz meu jantar e antes de anoitecer notei que tinha perdido minha lanterna, o casal gentilmente me deu 5 velas. Armei meu saco de dormir ao ar livre e fui dormir escutando o rio bem pertinho. Maravilha
Fumaça por baixo
Acordei cedo. Tomei um bom café da manhã e parti em direção à toca do Macaco subindo o rio Capivara. Levei 1h. A toca maior fica do outro lado do rio que vem da Fumaça. É preciso cruzá-lo. Escondi minha cargueira por perto e segui na trilha da fumaça por baixo. A trilha começa pela direita, mas 95% dela está localizada na metade esquerda do percurso. Logo após a passagem pelas pedras grandes, ela muda de lado. Eu descobri isto na volta. Na ida fui pela direita caminhando por pedras bem escorregadias. Encontrei uma cobra-espada de meio metro no percurso. Antes de se chegar ao poço já é possível avistar a incrível queda d’água que parece de fato como uma cortina que vai se movendo conforme o vento. Eram 13h30min. Tomei um ótimo banho gelado. Não havia ninguém por lá. Desfrutei do sol e às 15h comecei a volta. Uma hora e meia depois já estava chegando na toca quando avistei um outro casal ao longe, estavam nus. Escutaram minha aproximação e prontamente se vestiram. Eu conversei com eles um pouco, disse que iria pegar minha cargueira do outro lado do rio e voltaria em direção à toca. Já na toca preparei minha comida quando chegou um grupo com dois franceses, um mexicano, Mário, e um guia. Conversei bastante com o Mexicano que já havia visitado a Índia e estava agora conhecendo o Brasil. Depois bati um papo com o guia que me contou casos a respeito das trombas d’água que ocorrem na região. Assustador. Ele contou que a toca que eu fiquei na noite anterior poderia ficar submersa caso chovesse na cabeceira do rio e uma tromba d’água viesse arrastando tudo. Era preciso ficar atento às chuvas que rolam à noite na região, pois o rio subia em questão de segundos e não havia tempo de salvar nada. Dormi mais cedo junto com os outros. Apenas os ratos estavam acordados buscando por comida que geralmente sobra dos trilheiros. Para ficar tranquilo, tinha amarrado minha comida no teto da caverna. Já o o guia me contou que acordou às 4h incomodado com uma briga de duas ratazanas enormes.
Serra do Macaco e Fumaça por Cima
Acordei cedo e já preparei meu café. Às 9h comecei a subida da Serra do Macaco. A trilha começa logo acima da toca. Esta montanha realmente é um teste de resistência para os trilheiros. Uma escalada interminável com degraus de 2 a 3 metros por mais de uma hora. Depois disso segui a trilha em direção à montanha que fica ao lado da serra do macaco (sentido oeste). Há uma parte plana e depois continua a subida na direção norte, basta seguir as setas marcadas no chão. Após 2 horas, chega-se ao córrego do Santuário, nele é necessário ter atenção e manter-se à direita por um tempo até chegar a uma abertura também à direita que irá te conduzir ao topo da fumaça. Nesta parte as pessoas se perdem com frequência. O importante é manter a direção correta e logo você cairá numa trilha bem mais ampla e super batida que é da Fumaça por cima. Eu levei um total de 3h desde a saída da toca do macaco até o topo da cachoeira. A vista da região é fenomenal. Você pode ver exatamente o caminho que fez no dia anterior e também o poço lá embaixo para os que tiverem mais coragem de se aproximar da encosta. Havia muita gente por lá, um grupo de brasileiras, vendedores e alguns franceses com os quais voltei conversando. A volta durou 2h30min de descidas até o vale do capão. Estava exausto e contente. Ao chegar à cidade, fui procurar um lugar pra comer e fui parar no famoso PF da dona Beli. Por 10 reais comi um prato maravilhoso e bebi aquela cerveja pra comemorar o fim de mais uma bela travessia. Depois escolhi a pousada Sempre-viva que tinha um ótimo quarto, Tomei um banho quente e tirei um cochilo. O Vale do Capão é um lugar incrível. Há várias comunidades alternativas por lá, boa parte dos moradores são vegetarianos, há muitos estrangeiros e todos vivendo em harmonia com o entorno. Fiquei alguns dias por lá explorando outras lugares como a Cachoeira da Purificação, a Gruta Azul e Pratinha. Mas a missão principal já havia sido concluída. Axé!























Comente!