Puerto Natales
A última etapa da minha expedição pela Patagônia foi no Chile, no Parque Nacional Torres del Paine. Para chegar até láe é necessário passar por Puerto Natales. Uma cidade chilena que fica bem perto da fronteira com a Argentina e que serve como base para alugar equipamentos e comprar mantimentos para o trekking. Me hospedei em uma ótima pensão chamada Dickson Hotel que inclui quarto individual com café da manhã por 40 reais. Almocei no restaurante La Tranquera que apesar do nome ofereceu um ótimo peixe e uma boa sopa de mariscos com arroz. À noite jantando conheci César, formado em cartografia, que trabalha mapeando a costa chilena. Depois de comer, fomos ao Ruperto Bar que trazia como estilo musical naquela noite a Cueca, dança oficial chilena, que representa o desejo amoroso de uma mulher por um homem. Após algumas cervejas, vi que já passavam das três e resolvi voltar para o hotel. Para minha surpresa estava fechado. A noite estava fria e chuvosa e eu bati por mais de 10 minutos na porta, já estava desesperado até que um hóspede salvador veio abrir a porta pra mim. Ufa
Acampamento Chileno
No dia seguinte, 07/02, o ônibus saiu às 8h. Fui dormindo no trajeto. Chegamos na portaria do parque às 10h. Havia a possibilidade de pegar uma van até o começo da trilha ou ir andando por 7 km. Escolhi a segunda opção junto com um casal argentino e três chilenos. Estes últimos iriam fazer o circuito O que dura sete dias e para meu espanto, um deles ia com calça jeans e bota de segurança. Já meu plano era fazer o circuito W do parque que dura 4 dias. Após 2h de caminhada, os chilenos ficaram para trás e segui com o casal pela trilha que começava na hosteria Las Torres. Após ver um japonês andando de chinelo com uma mochila cargueira pesada, não duvidada de mais nada. Na sequência encontrei um grupo de garotas israelenses, duas das quais já havia visto antes, então deixei o casal ir na frente e fui acompanhando elas. Após passar pelo belo vale do Ascensio, chegamos ao acampamento chileno de tarde. Você precisa pagar 6 mil pesos chilenos para acampar, algo como 20 reais. Como estava lotado, tive que montar minha barraca em um local inclinado. O refúgio conta com um restaurante climatizado e também com abrigos para aqueles que preferem dormir melhor. Preparei minha refeição junto com as garotas e tomamos um pouco de vinho. Mais tarde ainda experimentei pisco, um tipo de cachaça chilena feita da destilação do mosto proveniente das uvas.
Mirador Torres e acampamento Los Cuernos
Acordei às 5h. Me aprontei para ver o amanhecer no mirador de Las Torres. No caminho conheci os chilenos Léo, Álvaro e Cristovan de Valdívia. A subida final é realmente íngreme e boa pra testar meu nível de resistência. As torres estavam encobertas e fazia muito frio. O termômetro de Léo marcava sete graus, mas o vento tornava a sensação térmica menor. Para aquecer comemos um pouco e conversamos bastante. Após quase duas horas, o tempo abriu e pudemos então ver claramente as torres, o cerro Nido del Condor e toda a paisagem em volta. Surreal. Às 11h estávamos de volta ao refúgio para desarmar as barracas e seguir para o acampamento Los Cuernos. As israelenses seguiram na frente enquanto eu acompanhei Léo que estava com duas barracas de mercado na mochila iguais aquelas da Capri. Me dizia que caso uma quebrasse usaria a outra. Eu desacreditei kkkkk. Como eu estava num ritmo mais forte, voltei a encontrar as israelenses. Estavam assustadas, o vento tinha arrastado uma delas por causa da capa da mochila que se abriu como um paraquedas, ela quase caiu montanha abaixo. Uma dica, se assegure que a capa esteja bem ajustada ou guardada em algum bolso. Segui em frente, havia um atalho que eu passei batido e então caminhei três quilômetros a mais até chegar a Los Cuernos. No total daquele dia caminhei 25 km. Passar pelo lago Nordenskjold é sentir-se no paraíso, a cor da água dele é linda. No caminho fui conversando com uma francesa que reclamava do vento que aliás não estava tão forte. Eu dizia que adorava o vento. Às 17h cheguei ao acampamento. Estava lotado também. Montei minha barraca no alto e usei muitas pedras pra garantir a estabilidade dela. Preparei meu arroz 4 queijos com pimenta, tomei um suco e fui dormir.
O Vento no Vale do Francês
Eu disse que gostava de vento, agora pense em um dia que ventou pra caralho. Pois este foi o dia. Exatamente às 6h da manhã ele começou. Vinha como em ondas: a cada 30 segundos. A francesa que montou a barraca do meu lado se mandou. No começo era leve. A partir das 8h uma rajada fortíssima que fazia a barracar sambar. Tive que sair. Fui tomar café no restaurante. Lá encontrei outra francesa que já havia visto em Ushuaia. Estava com a cabeça e o joelho machucados. O vento havia carregado ela com cargueira e tudo. Levantou e jogou ela no chão como se fosse em um video game. Disse a ela que iria até o Vale do Francês, mas ela dizia pra eu ficar por lá e não sair de jeito nenhum. Deixei a barraca abaixada e às 12h parti para o vale. O vento era inacreditável, eu podia escutá-lo chegando e era o tempo de abaixar pra ele passar. Estava a mais de 70 km/h, fazia redemoinhos com os sedimentos que ficavam na superfície do lago e jogava a água dele em quem estivesse passando. Era como se estivesse chovendo de baixo pra cima. Fui bastante cauteloso, o sol estava forte e a situação era realmente fantástica. Levei 1h pra chegar ao acampamento italiano. Comi um pouco e segui em direção ao acampamento britânico. O primeiro mirador estava a 1h. No caminho encontrei crianças e idosos. Esta parte da trilha passa por bosques e se afasta do lago, estava mais protegida. O primeiro mirador é muito bonito, fiquei por algum tempo e segui até o segundo depois do acampamento britânico. Levei mais uma hora e de lá tive um panorama realmente fantástico das geleiras, das montanhas ao redor, do vento soprando e do lago ao fundo. Após tirar algumas fotos comecei a voltar. Ao passar por uma área aberta, o vento me empurrou e eu com um dos bastões me apoiei para não ser jogado. Estava quase engatinhando hehe. Segui em frente e caminhando sem parar cheguei de volta a Los Cuernos às 18h depois de caminhar 26 quilômetros no total. Após conversar um pouco com Léo que deu muita sorte de encontrar um abrigo seguro pra sua “super” barraca, resolvi descer a minha um pouco já que lá no alto ficaria bem difícil pra passar a noite. As garotas israelenses tinham más notícias: as duas barracas delas quebraram. Isso porque uma delas, apesar de velha, era pra alta montanha e a outra era exatamente igual a minha. Elas não baixaram a barraca durante o dia e como o vento não parou, ficaram destruídas. Patagônia não é brincadeira não! Mas elas conseguiram abrigo. Estava chovendo e depois de fazer meu jantar fui para o restaurante que estava muito mais quente e seguro hehe. Junto com duas chilenas, Blanca e Natália, e um chileno compramos uma garrafa de vinho. Nem havíamos começado a beber e já queriam fechar o restaurante. A cena era bizarra, os funcionários estavam empurrando e arrastando os gringos que insistiam em ficar lá dentro. Nós ficamos na porta bebendo. Eram 23h e alguns trilheiros tinham acabado de chegar das trilhas, anoitece por volta desse horário por lá. Por isso queriam ficar dentro do bar, já que não havia como armar barraca naquelas condições. Tiveram dificuldades pra passar por causa da tormenta e também falaram de um rio super perigoso que tiveram que cruzar. Eu fiquei curioso pois não tinha cruzado nenhum rio na ida. Fui dormir por volta da 1h.
Puerto Natales, Calafate e São Paulo
Dia 10/02, meu plano inicial era acordar às 3h e ir pro acampamento Grey fazer a última perna do W. Nem pensar! Estava cansado e levantei às 6h. Mudei os planos, voltaria para a hosteria Las Torres de onde eu pegaria uma van às 14h para Puerto Natales e depois pegaria um ônibus às 18h pra Calafate. Tomei um ótimo café com leite, comi e comecei a caminhar de volta às 8h. As israelenses tinham saído mais cedo e logo eu as encontrei no caminho. Não havia nenhum sinal de vento na região, eu ainda brinquei dizendo que hoje a Patagônia estava bem calminha. Pra quê? Vocês se lembram do rio que eu comentei mais acima? Pois 5 minutos depois nos deparamos com uma corredeira larga, turbulenta e quase intransponível. O riachinho que eu cruzei na ida tinha virado uma cachoeira por causa da chuva e do vento. O que acontece é que o vento faz que a geleira derreta mais rápido e assim se formou esta “catarata”. Avistamos um grupo de chilenos no outro lado da margem e um deles no meio do rio com uma corda improvisada. Um pouco depois a corda se desamarrou da pedra e eu por instinto segurei-a salvando o garoto de ser arrastado morro abaixo. Eles acabaram levando a corda e nós que já éramos 20 estávamos ilhados do outro lado da margem. Eu subi para encontrar algum ponto de passagem e nada, começamos então a descer acompanhando o curso dele que ia se desmembrando em partes menores. Um pouco depois vi um casal que estava a nossa frente na trilha subindo do outro lado. Então ao descer mais, percebi um local em que teríamos chance de cruzá-lo. Tirei as botas, levantei um pouco as calças e arrisquei. A água estava gelada, mas a adrenalina era tanta que eu não sentia absolutamente nada. Qualquer erro poderia ser fatal. Eu comecei a entrar no rio. Num trecho vi que a água chegaria a minha cintura e calculei que teria imediatamente depois que me jogar na pedra mais à frente pra não ser levado pela fúria do rio. Foi o que eu fiz e realmente descalço e com uma carga de 15 kg nas costas não foi fácil. Passei a primeira parte e repeti a operação em seguida. Já estava então numa parte mais seca no meio das duas corredeiras agora divididas. As outras pessoas não quiseram arriscar o mesmo caminho. Então um pouco mais acima num trecho até melhor começaram a cruzar de uma forma muito bonita: fizeram uma corrente humana e mesmo sem se conhecerem, todos deram as mãos e conseguiram cruzar a primeira parte da corredeira. Eu como já estava do outro lado filmei aquele lindo momento. Realmente emocionante, gravei um vídeo deste momento. Pois bem a segunda parte foi mais tranquila pois um tronco caído garantiu nossa passagem. Meu pé sangrava um pouco, mas não havia tempo a perder. Levei 1h pra cruzar o rio e já eram 11h. Coloquei as botas, me despedi das israelenses e segui em frente num ritmo mais forte pra chegar até a van. Havia mais 10 km pela frente. Depois disso não tive mais surpresas. Cruzei com um grupo de japoneses idosos e eu fiquei pensando como passariam por aquela corredeira. Às 12h30min estava na hosteria Las Torres. Peguei o ônibus no horário e em Puerto Natales tomei um maravilhoso banho no Dickson Hotel onde tinha deixado parte da minha bagagem. Comi muito bem no La Tranquera e então peguei outro ônibus pra Calafate. De lá, tinha Avião pra São Paulo com parada em Buenos Aires. Era o fim da minha primeira expedição pela Patagônia, foram semanas de bastante intensidade, aprendizados, emoções fortes, encontros, amizades, experiências e festejos. A partir desse momento, as trilhas do mundo tinham virado uma grande oportunidade para explorar e se aventurar e uma motivação extra para viajar pela Terra e conhecer novos lugares e também conhecer a mim mesmo. Era 2012 e a semente já estava germinada dentro de mim. Até a próxima!
























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