Pisei em terras goianas pela primeira vez em janeiro de 2014. O Verão estava no ápice, ou seja, sol firme durante o dia com chuvas geralmente à noite. As cachoeiras estavam com grande volume de águas garantindo assim um espetáculo sem igual. Vindo de carona da Bahia, fui deixado na porta do hostel e camping Palco Livre às quatro da manhã. A casa possui um alto astral e uma grande receptividade, marcas do administrador do lugar Márcio.
A cidade, Alto Paraíso de Goiás, faz valer o nome. Município mais alto do planalto central, está rodeado de centenas de cachoeiras. Infelizmente a maioria delas é particular e a entrada é paga em muitas das cachoeiras, mas isso não obscurece a beleza emanada de suas águas. No camping, o balonista de Piracicaba, Felipe, planejava um vôo paranorâmico pela região, mas precisava esperar os ventos se acalmarem. Enquanto isso fui desbravar as trilhas da região. Comecei pela Loquinhas, a três quilômetros da cidade. Com diversos poços e quedas d’água, mereceu algumas horas de desfrute. Destaque para o poço dos Xamãs e do Sol, espetáculos à parte. Dia seguinte foi a vez da cachoeira Anjos e Arcanjos, fiz o trajeto de bike percorrendo seus duros 14 quilômetros de subidas e subidas. Suas águas escuras trazem um toque de mistério ao local. O que não impediu claro um ótimo banho por lá. A noite sempre reserva uma atração. Ocorria na cidade um feitio de Ayahuasca. O pessoal do camping fomos participar e para minha surpresa muitas pessoas que encontrei pela cidade estavam por lá. Destaque para minhas duas quedas da cadeira em que eu estava sentado, a primeira para a direita e a segunda para a esquerda. Aquela noite garantiu boas gargalhadas.
Segui então para a vila de São jorge, a 30 quilômetros de lá. Com ruas de terra e lobos uivando pela noite, o local conserva um ar mais selvagem, inflamando o ânimo de seus visitantes. Fiquei no famoso Camping Taiuá, um dos mais completos que já vi, com direito a academia, cozinha completíssima e instrumentos musicais a vontade. Colchões e redes ficam espalhados pelo local para maior conforto e harmonia. Por lá conheci Wátila de Brasília e Hanny do rio, também marinheiros de primeira viagem. Fizemos algumas trilhas juntos. A primeira delas foi dentro do parque nacional da Chapada dos Veadeiros. Andamos vinte e cinco quilômetros para ver seus dois Saltos, de 80 e 120 metros, e as Cariocas que reservam até mesmo uma banheira natural para os visitantes. Dia seguinte fomos de carona com Gildeon e César conferir o Abismo e a Janela, ponto alto da viagem e bota alto nisso. Deste último é possível admirar em 360 graus todo o esplendor da chapada. Foi possível ver os saltos do dia anterior e todo o caminho percorrido no parque. À noite foi até mais agitada do que em Alto Paraíso garantindo batuque de rua (de terra) até três da manhã, horário em que os lobos começaram a uivar enquanto um cowboy sem cavalo chicoteava o solo. Era hora de ir dormir.
Tivemos também uma tentativa frustrada de ir até a cachoeira do segredo. Dessa vez eu fui com o Tiago, o Alberto de Brasília e a Mãe da Lua, famosa na região. É preciso cruzar o mesmo rio quatorze vezes antes de chegar até a dita cuja. Estava chovendo e a região é conhecida pelas mortais trombas d’água. Chegamos até o início do nono cruzamento. Mas a água do rio neste ponto estava bem mais forte, turva e com bastante folhas e galhos descendo. Sinais típicos de tromba d’água (Vídeo). Paramos uns vinte minutos sem que ninguém se atrevesse a cruzá-lo. Comemos e optamos sabiamente por voltar. A volta foi difícil, como o rio subiu, não era mais possível ver o fundo e os cruzamentos estavam perigosos. Água na cintura e pedras grandes e escorregadias apimentavam ainda mais o cenário. Fizemos correntes humanas e apesar das dificuldades, chegamos sãos e salvos. Ainda não foi dessa vez que pudemos conhecer o segredo. Para relaxarmos um pouco, um lual no camping garantiu a festa até mais tarde. Trovadores conhecidos como canarinhos brancos nos brindaram com poesias e músicas ao redor da fogueira. O último dia na vila rendeu uma visita a famosa catarata dos Couros, 90 quilômetros de lá. Mesmo sob chuva e com algumas bifurcações erradas no caminho, achamos o lugar. Grande e poderosa, a catarata atrai muitos visitantes. Vale a pena descer até o final da trilha para ver o abismo que se abre à direita (Vídeo). A última noite foi mais tranquila e curtimos, eu, Hanny e Wátila, juntamente com a Fabi, moradora local, um som maneiro no estiloso restaurante Oasis Lounge.
Voltei pra Alto de carona, direto pro camping do Márcio. Por lá conheci a capixaba Gabriela e logo fomos a uma apresentação de maracatu na praça central. Ensaiei meus primeiros passos nessa incrível dança que faz vibrar no corpo inteiro a energia emanada da Terra. A noite acabou com bastante cerveja pra refrescar e uma memorável partida de bilhar contra um casal que tinha acabado de se mudar pra cidade. Dia seguinte fomos visitar Almécegas e São Bento.
A visita final com chave de ouro foi à cachoeira de Santa Bárbara, perto do distrito de Cavalcante. De carona e a pé, cheguei até a comunidade quilombola Engenho II, 6 km distante da cachu. A trilha até ela deve ser feita a pé ou com carro 4×4 e um guia é obrigatório. Ela é considerada uma das mais bonitas do País, e não é por menos, suas águas azuis deixam qualquer um maravilhado. Mesmo o tempo encoberto não diminuiu a beleza do lugar. Após me refrescar por algumas horas, já era hora de voltar a civilização. Em Alto Paraíso, fiquei sabendo que Filipe, o balonista, juntamente com Márcio, alcançou seu objetivo e realizou o tão esperado vôo panorâmico de balão. Feliz com o sucesso do vôo e satisfeito com toda essa aventura de quase três semanas pela Chapada dos Veadeiros, era hora de voltar a São Paulo. 24 horas de ônibus separavam o paraíso do inferno hehe. Mas nada como voltar pra casa renovado com a energia emanada pelos cristais de Alto Paraíso. Como se diz por lá: até já!
Lucas Ramalho
- Por do Sol em Alto Paraíso
- De Pernas pro ar!












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